O juiz e o perdão

Como juiz ele decidia o destino de muitos. Não por gosto, mas ele saboreava o poder de decidir. Naquele hospital ele era apenas o “AVC do 12”. Os médicos esqueceram-se de sua humanidade e se preocuparam apenas em nomear órgãos doentes, como muitas vezes ele fizera com o réu no tribunal ao se reportar aos autos.

Sua vida estava ameaçada de terminar. A respiração do Meritíssimo estava ofegante e os seus sentidos desmanchavam-se em silêncio e sombra. Profissionais de saúde percebiam o ritmo da vida mostrado em monitores, com desenhos que iam se desviando do padrão e diminuíam sua agilidade enquanto aquela vida se dissolvia em mistério. Mas ainda lhe restava consciência para sentir-se como um réu diante dos médicos a aguardar uma sentença.

As imagens do passado visitavam a sua memória a partir das histórias recentes e descambavam para um tempo mais longe: o tempo da infância. Assim, a ponta do começo de uma vida se unia à do fim, e formavam essa enigmática figura geométrica do círculo, em que não há começo nem fim. Tudo é eterno.

Ali deitado, avaliou o que teve validade na vida. Viveu uma vida de aparências no desempenho do seu trabalho, no casamento e nas relações sociais. A alegria do seu trabalho se confundia com a ambição. Socialmente, a vaidade era seu alimento e compensava os dissabores dessa vida de um homem genérico, com suas vitórias proporcionadas pelo jogo político de uma boa posição social.

Um de seus médicos se destacava por uma presença mais constante e por sua juventude. Essa presença parece ter influenciado suas reflexões sobre o quanto o poder de perdoar não lhe pertencia em seu trabalho e assim decidia o destino de um outro homem. Ficava a contemplar aquela juventude ao tempo em que lembrava o quanto percorreu sua existência encontrando no caminho as pedras dos momentos duros e, às vezes, sentia a brisa suave da primavera com o seu cheiro de flores, que logo murchavam, depois de mostrar sua beleza. Traduziam nossa sensibilidade às boas experiências, mesmo que passageiras. Enquanto isso, nessa estrada, o vento da saudade carregava as experiências do passado na forma de lembranças e imagens, em que os mortos não envelheciam e as paisagens insistiam em se mostrar congeladas no tempo.

Ele ouviu alguém chamar aquele enigmático médico jovem de Dr. Jairinho. Este lhe dizia alguma coisa ao ouvido enquanto o juiz apenas enxergava uma imagem um pouco borrada. A voz era de alguém que lhe falava alguma coisa quase inaudível e, ao mesmo tempo, tão pesada e colorida como o chumbo.

Uma melhora fez o Meritíssimo enxergar as feições do jovem que lhe odiava, mas pensava o quanto seu estado poderia levá-lo a distorcer a realidade. Afinal, o que seria concreto ou abstrato? Ou teria sido um sonho? Continuou em suas reflexões a se perguntar o que pode fazer sentido para uma existência. Eternizamo-nospor meio do que criamos, a exemplo dos nossos atos marcantes na vida de outros humanos, dos filhos e das gerações seguintes. Naquele momento, imaginou as estrelas e o quanto nos encantamos com a sua imensidão, sem nos interessarmos por sua distância. São apenas pontinhos luminosos guardando todos os segredos do universo. Talvez, por isso, dizemos às crianças que, quando alguém morre, “virou uma estrelinha”. Essa é uma maneira saudável de ensiná-las sobre a eternidade. Aquela pessoa está em algum lugar tão distante, que, só por meio da saudade, chegamos até lá.

O Dr. Jairinho continuava a lhe falar ao ouvido sempre que ia visitá-lo e estavam a sós, mas sua audição não fazia distinção. Em um desses dias, o juiz acordou com um pesadelo em que todo o cemitério tremia e as sepulturas deixavam seus mortos saírem apontando o dedo em sua direção enquanto um deles, uma mulher, cantava o Réquiem, de Mozart. Esse sonho aconteceu logo depois que ele escutou do médico enigmático o nome Rosa Malena. Esta era a desencarnada que cantava.

Em um mundo em que tudo passa e se degenera, o que haverá de estável, real e eterno? Perguntava a si mesmo, ao tempo em que se respondia. Talvez estivesse querendo conseguir o perdão dos seus atos por seu próprio amadurecimento até a morte física. Sabia que os médicos falavam que ele estava em um estado de coma, mas ouvia, sentia e até podia enxergar algumas vezes. Voltou a acordar de outro sonho em que Rosa Malena aparecia vestida de preto e com as mãos postas como a venerar o sagrado. Aquela que foi sua amante por um tempo e que, ao ficar grávida dele, sofreu seu desprezo e a recomendação de registrar o filho como se o pai fosse o marido dela.

O Dr. Jairinho estava de volta. Ele olhava e começava a entender que se tratava daquele menino que era seu filho. Agora ele estava, aplicando-lhe uma injeção na veia e, dessa vez, o moribundo juiz escutou com a nitidez que nunca tivera antes. Era uma sentença: “É com essa injeção de cloreto de potássio que você irá desaparecer de minha vida. Amanhã irei ao cemitério para assistir a sua cremação.”


Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

Um comentário

  • João Rana 25 / 05 / 2021 Resosta

    Muito forte! E bacana as referências. Poderia muito bem ser um drama da vida real. Aliás, será que não é? Parabéns, querido mestre!

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