O encanto do Natal e um desejo para o Ano novo mais humano

Por Carlos São Paulo

O ano de 2020 foi diferente. A pandemia que caracterizou este ano nos fez tomar consciência do quanto os abraços e a presença do outro são importantes. Talvez, pessoas que amamos não puderam receber seu último abraço. Pudemos enxergar, ouvir, falar e receber informações. Algumas destas para manipular, outras para nos ensinar ou nos informar sobre um mundo tentando se unir contra um inimigo comum. Qual deles? O vírus? A desumanização? Garimpamos as informações do mundo virtual, na tentativa de encontrar o ouro, ou seja, o que pode servir para um cristianismo rumo à evolução do homem.

Cristo, como um símbolo, leva o homem a ser capaz de amar sua natureza humana amando o outro tanto quanto a si mesmo. É fácil quando encontramos esse outro em sintonia com nossas ideias e imaginações, mas é uma evolução quando reconhecemos o diferente sem precisar criar “tribos”. Nós que estudamos e ensinamos os fenômenos psíquicos temos o compromisso com o que chamamos de leitura simbólica que evita a ilusão do literal. Por isso, podemos dizer que o menino-Deus nasceu em nossa imaginação, pedindo o compromisso com uma vida nova, que nasce para uma visão de mundo melhor.

O menino-Deus também nos convida a buscar na infância o encantamento que deixamos por lá quando o pensamento linear e literal desmanchara nossas fantasias tão necessárias, para voltarmos a ser o herói que desbravava mundos ocultos em nossa imaginação. É como os sonhos, abre espaço para descobrirmos nessa dimensão o oculto que se revela para contribuir com o nosso desenvolvimento e nos levar a uma melhor experiência da visão de mundo.

Como organismos complexos, criamos as civilizações que lutam para compreender sua própria natureza e, enquanto sobem a “Babel”, vão deixando pelo caminho as vítimas, que servem de apoio para essa necessidade de entender o incognoscível em vez de criar seus mitos para explicá-los. Podemos ilustrar, com os mitos científicos ou de forma poética, como os antigos povos nos esclareciam todos esses fenômenos de forma mais poética.

Em nossos caminhos, encontramos as pedras, que, por mais duras e pesada que sejam, vão nos exercitando e se tornando mais fáceis de empurrar. É levando essas pedras ao topo de uma montanha que conseguimos atingir níveis mais altos de consciência e assim enxergar melhor nossa maneira de fazer a diferença entre o subjetivo e o que consideramos objetivo. Reclamamos do que está lá fora, sem a consciência de que estamos enxergando o nosso próprio mundo interior.

Nossa consciência procura se adaptar ao mundo que imaginamos. Em nosso inconsciente, existem as antinomias que unem aquilo que na consciência seria oposto e irreconciliável. A morte abraça a vida, pois um não pode existir sem o outro. Da mesma forma que a alegria não pode existir para quem não sabe o que é a tristeza nem a rejeição para aqueles que não conseguem amar. O vírus, as estrelas, tudo isso faze parte desse mistério para o homem, que não se conforma em carregar em si todos os segredos do universo e não ter acesso a eles.

O Instituto Junguiano da Bahia, uma semente plantada no ano de 1989, cresceu e vem contribuindo para centenas de pessoas aprenderem a ajudar no desenvolvimento de si mesmas e do outro. São profissionais interessados em criar, imaginar, conhecer, saber como viver e compreender que, ao se soltar das amarras do entendimento literal do nosso pensamento dirigido, poderemos voltar a ver o mundo encantado novamente, como aquela criança que um dia foi herói.

Poderemos imaginar-nos empacotando a solidão e colocando ao pé de uma árvore de Natal, ou apenas desembrulhar o bom momento que é o agora, antes de transcender para a eternidade. A inevitabilidade do envelhecer será lembrada, afinal o Papai Noel já tem suas barbas brancas. Aquela criancinha que você viu nascer pode agora lhe ensinar o que ainda não sabe. Talvez você não saiba mais o que é ser criança. O fluxo da vida continua, enquanto a saudade dos que partiram nos obriga a conviver com a falta e entender o valor do outro que existiu, assustando-nos quando nos parece que foi esquecido. Não vamos nos esquecer do ano de 2020, mas desejar que o ano de 2021 seja mais humanizado.

 

    Feliz Natal!

 


Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

Lista de comentários

  • Francisco Negrão 19 / 12 / 2020 Resosta

    Estou muito comovido com esse seu artigo Professor Carlos porque além de nos mostrar Jesus e Pandemia como pares opostos da nossa eterna reconciliação psicológica:
    No final lembra de nos recomendar a não jogar fora essa criança com a água da bacia do ano de 2020. Obrigado.

  • Lívia Barros 19 / 12 / 2020 Resosta

    A medida que desbravamos nosso inconsciente, ganhando ciência de nós e dos mistérios do mundo, podemos nos tornar pessoas melhores e, consequentemente, mais humanizadas. Belo Texto, Carlos! Feliz Natal!

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