E agora Covid?

Depois de um dia intenso de trabalho médico, atendendo pacientes ansiosas e com muito medo, chego em casa exausta e me pergunto com a poesia de Carlos Drummond de Andrade: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou…”.

O Sars-Cov 2 invadiu o planeta como uma deusa irada, ceifando vidas e levando à destruição. Surge a morte com a sua foice cruel, tirando de nosso convívio pessoas a cada segundo. As cenas midiáticas (e reais) de covas abertas à espera de corpos, entram na gente como uma bebida amarga e venenosa.

O cenário de guerra é instaurado. Como num filme distópico vamos nos acostumando e nos indignando com a realidade. Passamos a sair mascarados e temerosos do contato com o próximo, nos enclausurando cada vez mais dentro de nós mesmos.

“E agora José? a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?… Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora?”.

Esse cenário desértico e sem esperanças na alquimia é chamado de nigredo, um tempo de morte e desmembramento, onde nos vemos em pedaços, dominados pela ansiedade de separação. Sobre qual antigo modo de vida estamos derramando lágrimas?

Os alquimistas falam de Putrefatio, um amarelecimento pelo tempo, onde formas são destruídas para que a vida renasça de outra maneira. Essa putrefação, metaforicamente representada pelo enxofre, irá acelerar a natureza rumo à sua decadência. O enxofre exala um cheiro forte (causado pelo sulfeto de hidrogênio) – cheiro do ovo podre ou das águas de esgoto e que se forma no contato do enxofre com o ar. Este cheiro sentido pelos alquimistas os levou a crer na ideia de que alguma transformação estava ocorrendo, e que se ela tinha este cheiro podre, tratava-se então de um aceleramento da podridão, da decadência.

Decadência do mundo, que nos coloca de cabeça para baixo, como o enforcado do tarô. O simbolismo do 12 acompanha este arcano. Como nos diz Guilherme Arantes:

” Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos que eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais”

À meia-noite inicia-se um novo dia no lugar daquele que se foi. É quando um ciclo se completa depois da morte do ontem. O sacrifício necessário para recuperar a fertilidade da vida. Em que áreas da nossa vida devemos aceitar voluntariamente um sacrifício?

Ao ficar de cabeça para baixo, o pendurado perde seu ouro, que representa a perda das posses mundanas ou da autoestima (alquimicamente significa semear ouro na terra branca foliada). “Psicologicamente, isso representa a possibilidade de uma atitude nova e purificada em relação à materialidade. Significa a descoberta do valor transpessoal do ego. Aquilo que purifica é a consciência. A terra negra do desejo do ego torna-se a terra branca que encarna o Si-mesmo”.

O que o enforcado representa é uma espécie de imitatio Christi em que o alquimista experimenta a rejeição e o fracasso, levando à morte. É como Cristo na cruz dizendo “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

Mas podemos concluir o nosso texto com as palavras finais da poesia de Drummond:

“Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?”

Mesmo sem saber para onde vamos devemos marchar pois é no caminhar que se encontra a saída. Caminhando e cantando com Geraldo Vandré:

“Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”.


Ermelinda Ganem Fernandes – Médica, analista junguiana, doutora em Engenharia e Gestão do Conhecimento. Coordena o curso de Pós Graduação em processo criativo e facilitação de grupos – abordagem junguiana no IJBA

Lista de comentários

  • Edite Hupsel 19 / 05 / 2021 Resosta

    Perfeito. Inspirado! Que bom temos esses escritos para ler e pensar! Obrigada!

  • Ivana Libertadoira 19 / 05 / 2021 Resosta

    Perfeito, pró!!!!
    Uma reflexão radical para um momento tão singular.
    Obrigada!

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