UMA VIDA QUE FAZ SENTIDO – Destino como Sina, Hamartia e Escolha

por Absolon Macedo

Somos constantemente subjugados por caprichos da vida, estando submetidos a um império de contingências independentes de nossa deliberação (Sina). Os rumos de nossa vida são também direcionados por processos pessoais inconscientes, fenômenos que os gregos antigos intuíam como decorrentes de Hamartia (“visão ferida” que nos induz a fazer a coisa errada). Existem ainda outros eventos consequentes de Escolhas conscientes que direcionam a nossa jornada, entre as quais se destaca primordialmente a busca de sentido para a vida através do atendimento ao chamado pessoal.

Encontramos grande dificuldade em discernir as diferenças das circunstâncias de nossa vida que geram consequências evitáveis daquelas provocadoras de consequências inevitáveis. Também observamos de uma forma geral o uso de outros termos como substitutos de Destino, tais como: Sina, Fatalidade, Fado, Fortuna, Sorte, Azar, Acaso, Providência. Entretanto, para melhor entendermos a funcionalidade geral desses fenômenos responsáveis pelos eventos direcionadores do enredo de nossa vida, faz-se necessário discriminá-los:


1) Sina (Fatalidade, Fado, Fortuna, Sorte, Azar, Acaso, Providência)

Eventos decorrentes de circunstâncias que não contaram com a participação de nossa deliberação, ou seja, que não poderiam ter sido evitados por nós. Por razões de simplificação, vamos utilizar sempre que possível neste artigo o termo “Sina” no lugar de seus aqui considerados sinônimos: Fatalidade, Fado, Fortuna, Sorte, Azar, Acaso, Providência.

2) Destino

Eventos decorrentes de circunstâncias que contaram com a participação de nossa deliberação inconsciente (Hamartia) ou consciente (Escolha), ou seja, que poderiam ter sido eventualmente alterados por nós. Entre os eventos decorrentes de nossa deliberação consciente encontram-se aqueles relacionados com o modo como lidamos com a nossa Sina e com o atendimento ao chamado pessoal que atribui sentido para a vida.


Sina como Destino Não Deliberado

No cenário de incerteza e inconstância das contingências da vida atuantes nas questões humanas, Nietzsche assim nos instiga em “Assim Falou Zaratustra”: “Acima de todas as coisas, estende-se o céu da Contingência, o céu da Inocência, o céu do Acaso, o céu do Capricho”, provocação que compartilha da angústia de Fernando Pessoa ao desabafar: “Apavora-me a tirania suprema que nos faz dar passos não sabendo de que acontecimento a incerteza de mim vai ao encontro”. (1)

Considerando essa questão relativa às incertezas da existência, concluímos ser irrefutável que no conjunto das circunstâncias da vida encontram-se aquelas que não podemos alterar por não termos autonomia para fazê-lo. Estas independem de nossa volição e deliberação, configurando o que aqui estamos caracterizando como Sina. Por exemplo, nascemos com um código genético definido, de pais não escolhidos por nós, num contexto cultural específico, com uma inclinação vocacional distinta, com uma constituição física e mental inatas. Somos também sujeitos a diversas circunstâncias externas que não são decorrentes de nossas decisões, como quando sofremos os efeitos de uma pandemia ou de uma “bala perdida” na rua.

Entretanto, mesmo nesse cenário dependente das contingências da vida, há diversas condições que estão sujeitas à nossa interferência, oferecendo-nos uma importante parcela de participação no direcionamento de nossa história e nos conferindo alguma dignidade como seres minimamente autônomos que não atuam simplesmente como meros autômatos sujeitos aos caprichos de um força maliciosa.

Destino por Deliberação Inconsciente

Como já antecipado, também no campo de domínio do Destino encontra-se a nossa história pessoal. Esta poderá estar sendo encenada através de um script que não foi essencialmente escrito por nós, o qual registra reflexos adaptativos que desenvolvemos como respostas às contingências da vida, fenômenos psíquicos denominados de complexos pela psicologia profunda. Esses processos pessoais internos podem estar impulsionando atitudes em nós que estão direcionando os rumos de nossa vida sem contar com a nossa participação consciente. 

Expandindo nessa linha de argumentação, Murray Stein registra que “tipicamente, uma pessoa jovem vive com a ilusão de possuir muito maior livre-arbítrio do que é psicologicamente verdadeiro. Todas as limitações à liberdade parecem ser impostas de fora, da sociedade e de regulamentações externas, e percebe-se muito pouco até que ponto o ego é controlado em igual medida de dentro. Uma reflexão mais atenta revela que somos tão escravos da nossa própria estrutura de caráter e demônios interiores quanto da autoridade externa… O destino é tecido de dentro, assim como ditado de fora”. (2)

Também criticando nossa ilusão de sermos possuidores de um  poder irrestrito de Escolha, Eckart Tolle alerta que só há verdadeiramente opções de Escolha quando existe um elevado grau de consciência, estado que exige a nossa desidentificação com os padrões condicionados da mente que nos obrigam a pensar, sentir e agir de determinadas maneiras. (3)

Com maturidade suficiente e mesmo que sob intensa relutância, poderemos reconhecer que muitas de nossas Escolhas pregressas decorreram de um limitado campo de visão, condição denominada pelos gregos antigos de Hamartia (“visão ferida” que nos faz “errar o alvo”). (4) Os helenos intuíam que havia uma analogia natural entre um arqueiro errar o alvo com sua flecha e um ser humano desviar-se da trilha correta na sua vida – a inabilidade do arqueiro em atingir o alvo residiria numa falha do caráter de sua consciência. Essa concepção parece já ter sido de alguma forma compartilhada em período anterior pelo filósofo chinês Confúcio ao dizer que “quando um arqueiro erra o centro do alvo ele dá meia volta e procura pela causa do erro nele mesmo”.

Aqui se vê uma relação direta entre “errar o alvo” e inconsciência. Permanecer no escuro sem o devido conhecimento sobre si mesmo e sobre as circunstâncias da vida nos faz incorrer em Hamartia, condição passível de ser superada somente através da expansão da consciência. (5)

Forças inconscientes e reações reflexas em nós tornam-se a lente através da qual fazemos Escolhas que naturalmente ocasionam suas respectivas consequências. Nos tornamos prisioneiros daquilo que não conhecemos sobre nós mesmos, ou por outra, podemos ser movidos pelo que não compreendemos a nosso respeito, permanecendo a serviço do passado, situação que nos remete a William Faulkner ao dizer que “o passado não morreu; ele não é nem mesmo passado”.  

Embora a mente consciente mantenha a crença de que está vendo as coisas claramente, na realidade são esses fenômenos psíquicos – os complexos – em ação no nosso inconsciente que, se nada for feito a respeito, estarão determinando uma importante parcela do nosso Destino que poderia ter se desenrolado de uma forma mais adequada. Sem uma boa medida de consciência, não conseguimos lidar com essas questões da nossa história pessoal que nos põem a serviço do passado.

Ficamos prisioneiros de importantes condições mutáveis de nossa vida se não questionarmos os padrões prevalentes nela e não descobrirmos de que comandos silenciosos do nosso inconsciente somos reféns. Em suma, somos obrigados a questionar sobre os scripts a que nossas Escolhas estão inconscientemente se sujeitando. Quanto mais estreita for a perspectiva da nossa consciência, mais estaremos corroborando com o vaticínio de Jung de que aquilo que é negado internamente em nós se torna parte do nosso Destino.

Destino por Deliberação Consciente

Conforme antecipado, entre os eventos decorrentes de nossa deliberação consciente encontram-se aqueles relacionados com o modo como lidamos com a nossa Sina bem como aqueles relacionados com o atendimento ao chamado pessoal que atribui sentido para a nossa vida.

Conforme enfatiza Hollis, Destino não é sinônimo de Sina. O Destino inclui o nosso potencial, as nossas possibilidades inerentes, que podem ou não vir a se realizar. O Destino convida à Escolha. Destino sem Escolha é apenas duplicação da Sina. (6)

Parte do que seria simplesmente atribuído por nós como resultado de nossa Sina (Destino sem Escolha, ou “Destino cego” como chamado pelos gregos antigos) poderia ter sido verdadeiramente alterado de forma consciente para fornecer uma direção mais plena para a nossa vida. O Destino representa um campo expandido de resultados, abarcando não somente as determinações da Sina, mas também aquilo que é passível de se tornar realidade a partir de nossas atitudes.

O acolhimento da Sina de uma pessoa era denominado pelos antigos de amor fati, expressão latina que significa “amor ao Fado” (“Fado” como “Fatalidade” ou “Sina”), cujo conceito, anteriormente adotado pelos estoicos e muito depois também empregado por Nietzsche, contempla a aceitação integral da vida mesmo em seus aspectos mais cruéis e dolorosos.

Como ilustração da perspectiva de acolhimento da Sina, podemos imaginar que uma pessoa com um traço depressivo inato irá certamente experienciar essa probabilidade genética ao longo da sua vida. Porém, a forma como a pessoa vai lidar com esse traço poderá variar dentro de um vasto espectro de possibilidades que transita entre o acaso (ficar simplesmente sujeito à situação) e a Escolha (lidar da melhor forma possível com a situação). Outra pessoa pode apresentar uma tendência inata à adição, mas por determinação própria escolher seguir um outro caminho. (7) A maneira como o indivíduo integra, compensa ou sucumbe a esse traço depressivo, ou lida com a tendência ao vício, fica à sua disposição.

Na primeira fase da vida temos que tentar conquistar o mundo para não sermos por ele devorados. Entretanto, na segunda fase da vida, temos que tentar ser quem genuinamente somos para não sermos devorados por quem estamos falsamente sendo. Com esse propósito em mente, temos que atender ao nosso chamado, buscando o sentido da nossa vocação pessoal. Vocação pessoal é o que somos chamados a fazer com nossa energia vital. Uma parcela considerável do significado da nossa vida decorre de atendermos esse chamado que faz parte do processo de individuação, dinâmica através da qual nos tornarmos nós mesmos tão plenamente quanto for possível.

Se na segunda fase da vida continuamos a buscar respostas para a questão pessoal “O que o mundo pede de mim” ao invés de para “O que a alma pede de mim”; se no lugar de procurarmos pistas para a questão “Eu sou chamado a servir a quê?” (“Qual é o meu vocatus – minha convocação interna?”), continuamos a perseguir a trilha que poderá nos prover de sucesso pleno e satisfazer nossa concupiscência desenfreada, estaremos de certa forma vivenciando o mitologema faustiano, temática do mito central da mente moderna, ao vendermos nossa alma à Mefistófeles.

Como Jung diz, a vida nos faz uma pergunta, e nossa vida é uma pergunta. O que é que ela quer de nós? O que nos é exigido para que possamos vivê-la totalmente? Não é de se espantar que muitos acabem, na meia-idade ou mais tarde, sentindo-se traídos. Eles investiram no que foram levados a investir por pressões sociais ou, talvez, sua própria visão estreita. Às vezes algumas pessoas fazem mudanças radicais nas conjunturas críticas da vida, mas a maioria delas permanecem presas pelas suas Escolhas originais, constritos pela sua percepção da própria inabilidade em mudar o curso e abarcar a intenção da alma.

A argúcia embutida no argumento de Lily Tomlin de que “mesmo que você esteja ganhando a corrida de ratos, ainda assim você é um rato” nos remete à continuidade do pensamento de James Hollis ao questionar se haveria outra alternativa à banalidade, à histeria e ao consumismo senão o sofrimento particular e honesto das questões relacionados com o sentido da vida, entre elas a primordial sendo “Eu sou chamado a servir a quê?”. (8) A resposta a essa reflexão existencial vai atuar de forma diferente para cada um de nós, mas em todo caso seremos servidos, de volta, por aquilo a que fomos chamados a servir.   

O Destino de Uma Vida Que Faz Sentido

Neste artigo postulamos que o nosso Destino contempla os eventos decorrentes de todas as circunstâncias de nossa vida, isto é, aqueles que não contaram com a nossa deliberação (Sina) bem como aqueles que contaram com a participação de nossa deliberação inconsciente (Hamartia) ou consciente (Escolha), tendo como base o pressuposto fundamental: “Destino é o resultado do que nos acontece e do que fazemos acontecer, incluindo o significado que atribuímos à nossa vida”.

Concluímos reconhecendo humildemente que as divindades escolhem as regras do jogo da vida, mas nunca esquecendo que estamos aqui para jogar esse jogo buscando nossa máxima expressão possível dentro das limitações impostas, assumindo, assim, a plena responsabilidade pelo uso que fazemos da importante parcela de autodeterminação de que dispomos. Somente dessa forma poderemos afirmar que estamos vivendo uma vida que faz sentido.


SOBRE O AUTOR:

ABSOLON MACEDO – Engenheiro, Especialista e Mestre em Administração, com Extensão em Gestão pela University of Waterloo/Canadá;  Pós-graduações em Psicologia Geral e Analítica das Organizações, em Filosofia Contemporânea e em Sociologia do Trabalho e da Saúde Mental;  Formação em Psicologia do Comportamento Social no CAPT-OKA/EUA, com Treinamento nos Institutos Junguianos de New York, Washington, Texas, Florida e Cleveland/EUA, e Aperfeiçoamento no Jung Institut Zurich; Qualificação e Certificação para aplicação do MBTI – Tipos Psicológicos (Steps 1, 2 e 3) e do PMAI (Estrutura Arquetípica) pelo CAPT/EUA, e do EQ-2.0/EQ – 360 (Inteligência Emocional) pelo MHS/EUA; Atuação em Coaching Analítico para Eficácia Pessoal e Vida Criativa, em Consultoria de Comportamento Organizacional e em Ensino como Professor de Pós-Graduação de Filosofia do Comportamento Humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(1) PESSOA, Fernando. Livro do desassossego.

(2) STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma.

(3) TOLLE, Eckart. O poder do agora: um guia para a iluminação espiritual.

(4) HOLLIS, James. What matters most.

(5) SANFORD, John. Healing body and soul.

(6) HOLLIS, James. A passagem do meio.

(7) HOLLIS, James. Creating a life.

(8) HOLLIS, James. Nesta jornada que chamamos vida.

Nota: Este artigo faz uso de trechos dos seguintes artigos anteriormente publicados pelo autor: “Quando culpamos o destino”; “A Hýbris como pecado contra a ordem cósmica”; e “Qual é o seu chamado?”