Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street

A existência pode ser um “prefiro não existir”, quando estamos limitados por um “muro” que nos separa de uma vida criativa, para nos transformar em um instrumento mecânico e assim atender as ambições de outros homens.

“Bartleby, o escriturário: uma história de Wall Street”, publicado em 1853, é uma novela do escritor americano Herman Melville, que ficou conhecido pela sua obra “Moby Dick”. A história é narrada por um advogado, que relata as suas memórias sobre o estranho caso de um dos seus funcionários, chamado Bartleby, uma pessoa do tipo que parece oferecer sua vida em sacrifício para levar o outro a compreender sua própria humanidade.

Em seu escritório, localizado na Wall Street, o advogado mantinha dois funcionários encarregados de copiar documentos, além de um boy de doze anos. Enquanto um dos seus funcionários era produtivo pela manhã e à tarde se tornava histriônico, com resultados pífios em suas atividades, o outro só conseguia produzir à tarde e também reagia de forma neurótica. Com o aumento da produtividade, o patrão contrata um novo funcionário, o Bartleby, para ser o terceiro copista.

Bartleby deixa seu chefe contente, uma vez que é o primeiro a chegar e o último a sair. Cumpre, de forma metódica e eficiente, o seu trabalho monótono de copiador. Instalado próximo ao patrão, para servi-lo em situações emergenciais, tinha, à sua frente, uma janela que lhe permitia enxergar apenas um muro.

Um dia, Bartleby nega-se a fazer qualquer outra atividade diferente de apenas copiar. E, tempos depois, nem essa tarefa ele quer fazer, mas não abandona o escritório. Sempre questionado pelo patrão sobre a razão desse seu comportamento, apenas repete a frase: “Prefiro não fazer”. A falta de um motivo que atenda a alguma lógica deixa o narrador encabulado, tentando entender o que está oculto. Esse oculto, por sua vez, é a alma de outro ser algo que só se revela por meio da linguagem enigmática das metáforas, ou por meio daquilo que nos afeta. Sobre esse rapaz, o que obteve como informação foi que antes ele trabalhava nos correios, incinerando as cartas que não chegavam ao seu destino.

O psiquiatra C. G. Jung, um cientista empírico, aprendeu e nos ensinou sobre a natureza humana, observando as manifestações da loucura. Foi assim que ele descreveu de que é feita a matéria dos nossos sonhos. Reduzir a rica história de Bartleby a um diagnóstico psiquiátrico empobreceria a compreensão desse retrato de nós mesmos, pois essa história é uma metáfora sobre a vida.

“Prefiro não fazer”. Uma frase que afirma e nega ao mesmo tempo. Ela contém a antinomia que compõe a nossa psique. Essa dimensão em que toda unidade é separada pela consciência, em opostos irreconciliáveis. O muro é um não. Um não à formação tribal dos humanos, que ainda imaginam muros para separar países, ideologias, orientação sexual e outras diferenças dentro de uma só raça. Um muro que separa um homem extraviado da vida, de outro, criativo, capaz de encantar-se com a existência e transcender qualquer limite.

“Prefiro não fazer”. Afinal, o que é a vontade livre? Uma personalidade, em seus diversos aspectos, não age sem a intervenção do que lhe é inconsciente. Experiências esquecidas, mas guardadas pelos afetos, funcionam como um cimento, que vai unindo os elementos que se associam por suas similaridades e contiguidades, como um verdadeiro complexo de registro de nossas experiências e suas emoções. Podemos dizer que a vontade humana pode interferir, até certo ponto, no comportamento final das pessoas, mas Jung põe em dúvida a existência dessa vontade livre que pensamos ter.

Bartleby, antes de ser copista, incinerava as cartas que não chegavam ao seu destino. Assim como essas correspondências, também podemos não chegar ao destino que nascemos para cumprir. Nem sempre compreendemos o muro que separa as expressões subjetivas da alma das que são tidas como objetivas pelo nosso eu. Daí a dificuldade em conhecer a si mesmo, testar a realidade e censurar a consciência.

No princípio da humanidade, nenhum muro separava o público do privado. Os deuses estavam por toda parte e tudo o que permanecia em mim se animava lá fora. Com a evolução, o eu precisou desse muro, que separa o que escondemos do outro, o privado, e criamos uma outra personalidade para ser mostrada do outro lado do muro, o que pode ser público.

No lado público, inventamos uma máscara para ocultar, muitas vezes, o que não compreendemos em nós mesmos, como um modo de ser que precisa do nosso respeito, pois talvez seja o que há de melhor em nossa alma. É uma máscara que, como um muro, separa a imagem que temos de nós mesmos daquela que usamos para impressionar até quem não conhecemos. Queremos ser aceitos, alimentamo-nos de likes e não percebemos quando estamos perdendo a noção de nossa singularidade e respeito pelo que verdadeiramente somos.

O “Bartleby” que carregamos pode nos levar a uma vida de insatisfação, pela repetição incessante em transferir mensagens falsas e verdadeiras, sem saber distinguir uma da outra, tornar a realidade subjetiva em realidade objetiva. Nada vai adiantar se apenas o corpo e as aparências são levadas em conta. Precisamos olhar mais para nossas imagens internas, em lugar daquelas que olhamos e transferimos aos outros por meio dos nossos celulares. Estes sim, um muro que, como Bartleby, habituamo-nos a olhar sem perceber que estamos envelhecendo, deixando de enxergar o sorriso dos nossos entes queridos, antes que se tornem fotos de recordação nesses mesmos instrumentos de separação.

Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br