Ao encontro do outro

Em torno de uma criança, uma vida foi plantada e espera acontecer. O indivíduo agora crescido pode “escolher” viver a experiência amorosa, ou apenas ser um solitário convencido de que assim evitará decepções.

Em nossos consultórios, ouvimos confissões de rapazes e moças com interesses em viver um relacionamento satisfatório, mas decepcionados com as suas tentativas amorosas até então.

Esses jovens querem entender o que se passa em suas buscas e encontros com o outro. Qual será a causa desse “azar”? É comum o uso frequente de advérbios que eternizam esse desencontro: nunca dá certo; sempre dá errado. Não se dão conta do quanto exigem ser atendidos em suas expectativas e nem percebem os “programinhas” mentais que são verdadeiros algoritmos disfarçados em reflexões. Não percebem suas próprias atitudes repetitivas que criam os problemas e nem sabem que existem outros “algoritmos” que podem ser utilizados.

Como analistas, aprendemos a escutar não somente as ideias que nossos clientes expressam como também o silêncio entre elas. Convivemos com os enigmas dos seus sonhos, verdadeiros sensores do que sentimos e não temos consciência.

Nossos sonhos trazem experiências da humanidade que de alguma forma foram vividas pelo sonhador. Quando conseguimos conectar essas imagens, com aquelas trazidas pelas narrativas de nossos clientes, incluindo seus silêncios, gestos, modulação da voz, ou qualquer outra das chamadas “pequenas percepções”, provocamos nossos pacientes com uma questão levantada a partir desse material, até que consigamos gerar as reflexões que chamamos de insight.

O trabalho com as imagens, que surgem durante o processo de cada paciente, é o de articular raciocínios metafóricos que fazem analogias com os fatos vividos por eles. É a partir daí que fazemos perguntas “artisticamente” formuladas, para que sejam capazes de suscitarem nexos na psique daquele que nos escuta. É dessa forma que o oculto se revela e as peças vão se encaixando nessa construção de autoconhecimento.

O oculto para se revelar, aprendemos com os mitos na história da humanidade, necessita de um lugar sagrado para haver respeito e se realizar um ritual. Uma sessão de psicoterapia é esse lugar, pois permite confissões de tudo o que é do humano e, claro, podemos falar não só de nossos aspectos virtuosos como também expor a nossa outra parte que nos envergonha.

Os animais irracionais seguem a vida executando ritos. Os humanos, por possuírem a capacidade de reflexão, criam e realizam os mitos. Assim, os mitos são as substâncias das narrativas feitas pelo homem para explicar tudo que estava em sua volta e traduzir o conhecimento de sua época.

Para cada época, os mitos ganhavam narrativas diferentes para explicarem os mistérios. Quanto mais antiga uma cultura, mais a história seguia um pensamento não dirigido como acontece em muitos sonhos. São esses mitos antigos, ou esses sonhos, que revelam nossos “algoritmos” – nosso modo de funcionar.

Joseph Campbell, mitólogo norte-americano, descreve que “o material do mito é o material da nossa vida, de nosso corpo, do nosso ambiente; e uma mitologia viva, vital, lida com tudo isso nos termos que se mostram mais adequados à natureza do conhecimento da época”. Quando a psicologia de C. G. Jung estuda os mitos das culturas primitivas, aprende a perceber as revelações da psique dos seus clientes e, assim, poder guiá-los pelos labirintos revelados pelos mitologemas, como se estes fossem parte de “algoritmos”.

Mitologemas são os temas isolados que observamos em qualquer mito. A bricolagem desses mitologemas constrói nossa personalidade, ao tempo que podemos nos guiar por caminhos que a mitologia nos revela.

Assim, para entendermos as experiências amorosas, podemos pensar no mito de “Eros e Psique” e reflexionar o mitologema que nos conta quando os amantes precisam sentir o modo como ferem uma relação com envolvimento de alma. Eros, o envolvimento, fere a si mesmo para fazer surgir a paixão. Psique, a alma, volta a ferir a relação com uma gota de óleo fervente quando toma consciência da beleza oculta desse outro na relação.

Psique sente culpa por tudo isso. A culpa é um mecanismo inútil, porque na maioria das vezes é apenas um reconhecimento intelectual sem que haja o sentimento real. Melhor considerarmos o remorso, esse sim é mais profundo quando reconhecemos com o coração, que, injustificadamente causamos dor no outro. É esse remorso sentido de forma autêntica que pode amadurecer e transformar a relação em algo mais verdadeiro.

Para melhorar a compreensão sobre o nosso tema da busca de um encontro amoroso com o outro, em lugar da experiência de ser um solitário, lançaremos mão de uma história da mitologia nórdica que é a do casamento de Frey e Gerda.

Frey era um rei muito poderoso que vivia uma vida sem sentido, até que conheceu Gerda e se apaixonou por ela. Não foi correspondido, pois Gerda, de forma obstinada, não aceitava o que ele lhe oferecia – os seus dotes. Frey entende que o poder é o oposto do amor e, então, revê o que estava proporcionando. Em lugar de se contaminar com a rejeição obstinada de Gerda, ele revê suas atitudes e oferece sua verdade interior, sua alma bela.

Finalmente, a postura de Frey leva Gerda a pensar no que é a vida sozinha e aceita se casar com ele, mas ainda aplica o desafio de dar a ele um prazo. Seu pretendente, bravamente, consegue lutar com sua ansiedade e faz o sacrifício da espera e finalmente realizam o casamento que dá sentido à sua vida.

Nas entranhas desse mito, percebemos como é importante uma reflexão sobre o sentir-se rejeitado. Isso é possível quando procuramos tomar consciência de nossas feridas. Um sofrimento anterior que nos feriu com a flecha negra da rejeição. Esse é um ferimento que nos deixa sensíveis e incapazes de persistir na conquista do outro por imaginar o “não” como um muro intransponível, já que as emoções do passado se infiltram no presente por ser um análogo.

Não se conquista com o poder das aptidões e talentos, como Frey pretendia. Em qualquer relação, vamos ser descobertos como verdadeiramente somos. Tiramos nossas roupas que utilizamos para impressionar o outro e admitimos como o rei, que também temos o medo de envelhecer sem um bom casamento. A solidão ameaça a todos nós no percurso da existência, por isso, há quem recorra à negação ao fingir que a condição de solteiro é a que prefere e “escolhe” conviver com a ferida da solidão que nunca cicatrizará.

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Carlos São Paulo – Médico e psicoterapeuta junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia. Coordena os cursos de Pós-graduação em Psicoterapia Analítica, Psicossomática e Teoria Junguiana. carlos@ijba.com.br  / www.ijba.com.br

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